Sexta-feira, 5 de Novembro de 2004

Irmãos

Nem sempre se encontra alguém que queira assumir vivências e especialmente os períodos de dor, ontem dois irmãos com quem tenho relações de afectividade e que para o caso não vale a pena distingui-las, aproveitaram este espaço para torna-lo num momento de partilha entre eles e entre quem tiver oportunidade de ler. São textos de rara beleza pela evidência do exposto, pelo caracter de determinação ao faze-lo e pela forma bonita como o fizeram. Estes irmãos que se descobriram enquanto tal há muito pouco tempo não são apenas irmãos na dor são e terão de sê-lo em toda a dimensão da palavra. “A morte é um assunto resolvido na eternidade de um amor”


Jorge Dias : Caros Vítor e António, Aqui vai a minha reacção ao desafio: O meu pai morreu e ninguém sabe porquê! Tinha eu 18 anos quando a minha vida se tornou num pesadelo. Como se deve imaginar, sendo a adolescência uma fase difícil, dispenso-me de vos contar a «aventura do meu sofrimento». Claramente, fui-me perdendo com o passar do tempo. Estive anos num deserto, em que não via ninguém. E para vos ser sincero, também não era capaz de “enfrentar” o mundo! Fiquei sem a pessoa que me ensinava a viver, que me dava as bases, que me aconselhava, que me amparava quando estava triste, que me criticava, no fundo, que me amava… Fiquei sem nada. O vazio e o silêncio foram os meus companheiros durante muitos anos. E foi quando encontrei a filosofia de Sócrates, Kierkegaard e Kant que me senti “tocado” para levantar voo em direcção a outros caminhos. A filosofia era já aí o meu futuro. Já nos bancos da Universidade, dava comigo a pensar em temas que tinha conversado com o meu pai. Daí a minha Tese de Licenciatura tenha sido sobre a felicidade, porque quando penso nele, ainda hoje, só essa palavra me assalta a mente. E a sua força é de tal modo estridente, que a minha Tese de Doutoramento vai ser sobre a Ética da Afectividade em Ponty. Vivo e amo a Filosofia. E foi nesse caminho que encontrei a mulher da minha vida, com quem decidi ser progenitor de um filhote lindo. Nestas curtas linhas, está condensado todo o sentido da minha vida. E é essa a resposta a desafio do António Dias. A minha felicidade, plenamente encontrada, sentida e promovida… A morte é um assunto resolvido na eternidade de um amor, que nunca poderá ser mesclado com a negatividade dos sentimentos humanos que clamam a posse, o superficial desorientado pela constante insatisfação… Se te “encontrares”, saberás o que estou a dizer! A vida não perdoa àqueles que nunca se encontraram! A mim, parece-me processo fácil, mas moroso. E se tivermos a ajuda de alguém, pode ser que se consiga a num tempo mais curto!(...) Para mim tenho que devemos resolver o ontem, pois só assim podemos aproveitar o hoje e contruir o amanhã. Até lá ficarei à espera de vosso «ensimismamiento», isto se leram a minha Tese sobre Julian Marias! E não esqueçam o que disse no inicio: o meu pai morreu e ninguém sabe porquê! Mas hoje, tenho quase a certeza que foi por negligência médica. Mas ainda assim, acrescento: ninguém fez nada! Eu tinha 18 anos… e fico triste quando penso que muito poderia ter sido feito… A mensagem ficou! E aí, a fé é “lei” no nosso caminhar, pessoal, nas ruas da felicidade. Não tenham medo! Coragem!...”


António Dias : A vida tem destas coisas. Sabes, Jorge, eu fiquei sem o meu pai, sensivelmente com a mesma idade que tu (18 anos), mais coisa menos coisa. Estou a falar do mesmo pai. Tenho agora 55. Fiquei sem ele sem ninguém me dizer porquê. Mas que houve alguma negligência no processo, não tenho dúvidas. É um processo muito difícil. Perder um pai. E eu perdi-o, sabes bem, duas vezes. A primeira, tinha eu os tais 18 anos. O então só meu pai saíu de casa. Sem me dizer porquê. A minha idade e, fundamentalmente, a minha inexperiência de vida, deixaram-me atordoado. Eu tinha pai? Realmente tinha, mas nem sabia dele. Nada. Rigorosamente nada. E ninguém me dizia porquê. Mais tarde, tinhas tu 18 anos, eu voltei a perder o meu pai (então já nosso). Continuei sem saber porquê. Digo mais. Só dez dias depois dele morrer é que eu soube que tinha ficado, definiva e irremediavelmente, sem pai. Longe de querer medir dores, quero que tenhas a certeza que a dor me atacou duas vezes. Sem ninguém me explicar porquê, eu ia sendo re-consumido pela dor. Agora mais forte, talvez. Ele tinha partido sem se despedir de mim. E ninguém, Jorge, ninguém me permitiu que eu me despedisse dele. A vida é assim. Dura. Muito dura(...).”

publicado por vitorcandidojose às 08:47
link do post | comentar | favorito
2 comentários:
De Anónimo a 5 de Novembro de 2004 às 13:55
Carla, para si um beijinho.
Vitor, um abraço grande.
A força que carregamos dentro de nós é muito grande.Antonio Dias
</a>
(mailto:adias23@netcabo.pt)
De Anónimo a 5 de Novembro de 2004 às 11:51
A morte é dos momentos mais dolorosos porque passamos. Ao longo da nossa vida vamos perdendo aqueles que nos são queridos, às vezes fora do tempo, se é que existe tempo para estas coisas. Pensar na morte é para mim das coisas mais difíceis, pensar que quem está comigo hoje poderá não estar amanhã, sim porque na vida nem tudo é certo e às vezes quando achamos que estamos seguros, que o dia de amanhã será mais ou menos dentro do dia que hoje terminou, como nos enganamos, de repente tudo muda e o que menos esperamos acontece, afinal o amanhã não está assegurado a ninguém. Por isto e por muito mais, temos que alimentar com palavras de amor de afecto, com um sorriso, um abraço, um beijo, os que amamos, os que nos rodeiam porque o amanhã pode não chegar. Por circunstâncias da vida vivi durante muito tempo encerrada numa concha, sem demonstrar os meus sentimentos, sufocava, porque todos nós temos as nossas dores, hoje posso gritar vitória porque todos os dias assumo o desafio de vencer mais um obstáculo deixar-me Amar, chorar, rir, ficar triste, VIVER.carla
</a>
(mailto:carlaalmeida@cnb.pt)

Comentar post