Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

Com a devida vénia (texto de Suzana Toscano)

Keep out!

 

"O Ano Novo tem destas coisas, aguilhoa-nos a consciência com esta aparência de novinho em folha e, de certa maneira, ajuda-nos a ver as coisas com outro olhar, talvez menos rancoroso, talvez mais disposto a desdramatizar as contrariedades. Por isso vou escrever o que se calhar nunca chegaria sequer a pensar, se não fosse esta época de alma limpa e boas vontades. E vou escrever que eu, fumadora moderada mas persistente há muitos anos, não posso, em boa razão, criticar a lei do tabaco.
Claro que me contraria, detesto que me dêem ordens ou me imponham restrições quando eu me considero mais do que habilitada a gerir os meus comportamentos de forma razoável. Claro que vivia muito melhor e me sentiria individualmente mais livre sem esta floresta de tabuletas com o sinal proibido e eu, pobre fumadora, a sentir-me expulsa dos “meus” locais favoritos, Keep out!, como se faz aos indesejáveis.
Mas a necessidade de me adaptar às novas circunstâncias fez-me mudar alguns hábitos e foi assim que reparei que, afinal, antes também vivia com outras tantas limitações, com a diferença que resultavam da minha opção pessoal, determinadas em função do meu conforto ou do meu julgamento das conveniências mas, ainda assim, eram limites ao prazer de fumar um cigarrinho quando me apetecia.
A saber, nunca fumei na rua porque me ensinaram em criança que era uma falta de educação grave. Raramente fumava em casa, primeiro porque as crianças eram pequenas, depois porque elas não gostavam, finalmente porque decidi que deixava o maço no carro ao fim do dia. Há muito tempo que não levo cigarros para reuniões, mesmo as mais prolongadas. No avião nem me lembro dos cigarros. Nunca fumava no carro, meu ou dos outros, porque não gosto do cheiro que se entranha, porque tenho medo de queimar a roupa ou de me distrair a guiar. E há muito tempo que, se vou com alguém que não fuma, também me inibo de fumar no café restaurante. Além disso, há poucos anos, parei de fumar durante um ano porque tive um problema de saúde que desaconselhava em absoluto a absorção do fumo.
Tudo isto para me lembrar que já havia muito espaço condicionado à minha qualidade de fumadora, só que eram limites que eu própria decidia, por conveniência pessoal, podemos bem resumir assim, dependendo exclusivamente do meu interesse ou vontade. Agora, trata-se de aceitar que o critério da conveniência e conforto dos outros também faz todo o sentido, sendo certo que não se sobreporia ao meu gosto pelo cigarro se não me fosse imposto, tenho que reconhecer, há coisas que só mudam mesmo à força, os egoísmos pessoais por excelência. É uma grande maçada? Sem dúvida, até porque agora só posso fumar na rua, na minha casa, no meu carro, tudo o que não fazia antes porque não queria, tenho que pensar como é que vou resolver este conflito…O mais certo é ir deixando de fumar, até porque não quero pagar o imposto que aumenta mais uma vez, sempre é uma forma de me vingar das proibições. Keep out!"

 

publicado por vitorcandidojose às 11:29
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