Segunda-feira, 21 de Março de 2005

Tombaram mais dois policias.

Estas ocorrências continuadas de violência extrema na zona da Amadora, não são passíveis de ser analisadas episodicamente e nem fora do contexto social e histórico. Desde os idos anos 70 que se permitiu ou mesmo incentivou o crescimento dos bairros de lata. Todas as manhãs a esmagadora maioria dos homens abandona estes bairros, com o rotulo de “mão de obra barata” necessária para ocorrer ao selvagem crescimento dos subúrbios de Lisboa, dos quais financeiramente beneficiavam os Municípios quer através das taxas quer dos impostos inerentes à construção civil e empreiteiros que sem escrúpulos aproveitaram da desprotecção jurídica e das necessidades de muitas famílias. Durante anos ignorou-se os guetos que se criavam propícios a cadastrados, como o homicida destes dois agentes, que encontram nestes locais, uma fronteira do Estado de Direito que lhes permite esconderem-se e perpetuar os seus actos com uma dose acrescida de impunidade. Durante anos ignorou-se a previsível explosão da criminalidade da dita “segunda geração”. Tudo isto era por demais previsível e evitável em larga medida se não se tivesse aliado tanta incompetência a outra tanta ganância. Cabe deixar claro e sem espaço para qualquer duvida que em nenhuma palavra se procura justificar o injustificável, o acto cobarde e canalha de ceifar a vida a estes dois policias. No meu entendimento a responsabilidade pessoal não é alienável por questões de carência social, quem comete crimes deve ser punido (ponto final). Mas se continuarmos a fechar a questão na condenação do assassino e no aumento dos efectivos policiais, desculpem mas então parece que procuramos nos enfiar na asneira para obter um pretexto para um constante exercício de lamuria. Não se pode desligar a miséria da criminalidade e nesse âmbito se chama à coacção um dos maiores fracassos políticos e sociais dos últimos 30 anos, é também aqui que se revela um embrutecimento da nossa democracia. Permanecendo hoje a falta de um trabalho de índole global que passa pela segurança, justiça, emprego, cultura, saúde, habitação, escola que permita estimular a construção de projectos de vida por parte destas pessoas, urge combater estas desigualdades, este é um desígnio do Estado, de uma forma prosaica, o Estado deve assegurar no mínimo as mesmas oportunidades aos habitantes da Cova da Moura como aos residentes na Lapa.


PS : Para quem tenha algum interesse no combate ao crime urbano, “Paradigma Urbano” é um excelente livro que conta a experiência das autoridades políticas, académicas e policiais de Nova Iorque que desenvolveram um programa que reduziu substancialmente a criminalidade nessa cidade.

publicado por vitorcandidojose às 09:27
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2 comentários:
De Anónimo a 22 de Março de 2005 às 09:29
Caro Vitor, mais um estimulante texto a prometer reflexão. O acto, como diz, é canalha, selvagem. De facto, não podemos olhar para isto como se se resolvesse com mais efectivos. Não é possivel aceitar que no nosso pais existam bairros onde a policia não entra, onde se criaram autênticos viveiros da criminalidade. Não é possivel que se olhe para estas ilhas de desgraça e se tente criar uma cintura higiénica com tapumes ao mais belo estilo da cegonha, da cabeça na areia.
Era bom que estas coisas fossem discutidas mais profundamente como propôs.
Um abraço Luís Sequeira
(http://abnegado.blogspot.com)
(mailto:sequeiralopes@iol.pt)
De Anónimo a 21 de Março de 2005 às 18:53
E quantos mais irão tombar, enquanto os nossos governos não admitirem que estamos num País onde se verifica um aumento real da criminalidade e por isso se constata um risco acrescido para qualquer cidadão?
O bairro da Cova da Moura ou o da Falagueira (no caso de ontem) constituem focos de crime em escala muito maior do que o do Restelo ou o da Lapa.
Por que espera o estado português para equipar as autoridades policiais adequadamente? É admissível que estes dois agentes mortos tenham ido cumprir uma missão de alto risco sem um colete à prova de balas? Usando armamento inferior ao presumível bandido, apanhado hoje em Melides, dono de um autêntico arsenal bélico?
Senhores políticos, tenham coragem e tomem as medidas necessárias. para bem de todos os que querem segurança e paz.Antonio Dias
(http://salvoseja.blogspot.com)
(mailto:adias23@netcabo.pt)

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