Quarta-feira, 20 de Outubro de 2004

O Padeiro

As palavras de Jorge Dias no texto de Domingo “Há fases na vida em que apenas nos bastaria uns «pãezinhos quentes», para nos sentirmos bem com a vida. Mas a vida nem sempre nos permite esse luxo. E as situações são várias: ou os pães estão frios quando os vamos comprar, ou já não há pão (frustração total!) ou o pão é artificial... Por estas adversidades, costumo comprar o pão sempre na mesma padaria. Acontece que a "minha padaria" fechou. O senhor deve ter-se reformado, espero eu! Houve quem dissesse que ele tinha morrido. Só sei que agora a minha vida perdeu muito... Tem sido dificil habituar-me a um novo padeiro... Como sabem, o capitalismo venceu e toda a gente quer ganhar dinheiro! Que se lixe a qualidade de vida! E que se lixe o enorme afecto que eu nutria por «aqueles pãezinhos quentes» que eu costumava encontrar em vários sitios. O padeiro com que eu cresci, era vendedor ambulante... Apanhei-o no Bairro Alto (Rua da Rosa), no Alentejo, no Algarve, etc... Era tão bom saborear aqueles pãezinhos. Eram momentos de intensas vivências: fosse ao pequeno almoço, fosse ao almoço ou ao jantar... Recordava partilhas, conversava, sentia muito afecto, sempre acompanhado pelo enorme carinho com que aquele padeiro fazia os pães "para mim". Hoje, também eu já posso morrer! Encontramo-nos fora do tempo... Até lá! “


Terá morrido o padeiro que descreves? Terá sucumbido a força das grandes superfícies que abundam e inundam e consomem a nossa Rua? A importância que ele tem nos dias da minha Rua, é para mim motivo mais que suficiente para deixar o aconchego de casa e enfrentar uma pequeno tempestade que traz consigo este Outono. Encontro a Rua deserta, receio que tenham partido e apenas deixado memórias de outros dias e de outras tantas ilusões. Há um frio que enregela que teima em perpetuar-se, são tempos de renuncia que se avizinham. A Rua é fria e distante, parece esquecida de si mesma. Pergunto com quem me cruzo na Rua onde se encontra o nosso padeiro, alguns dizem-me que no mesmo sitio de sempre, outros pensam que ele tenha mudado e não sabem bem para onde nem qual a razão que substantivou essa mudança. Acredito que a noticia da morte do padeiro é ligeiramente exagerada, talvez um boato invejoso tivesse sido espalhado pelo Bairro. A minha procura atravessa a Rua e prolonga-se até ao passado, algum tempo depois decido pela evidência e procuro por ele onde as árvores teimam e as flores se escondem. Num banco, sentado, encontro o nosso padeiro. Tem um t-shirt azul clara com um colarinho azul escuro, tem um olhar triste, mas mantém aquele sorriso de miúdo, contempla a Rua, conta-me que não desistiu da sua labuta que o seu pão mantém o essencial, o Acreditar, juntou-lhe um pouco de Fé talvez porque as pessoas lá da Rua assim o obrigassem, tem um ar cansado e sabe que em algumas casas o pão falta e desabafa-me que essa falta começa na dele. Pede-me um tempo, olha para as mãos e garante que o pão vai voltar pelo menos igual ao que sempre criou, mas agora fraqueja e procura um abrigo desta chuva que teima em passar pela Rua. Somos realmente uma sociedade consumista. Essencialmente consumimos um Bem, Nós próprios. Quantas vezes a verdade foge nas palavras sem que nós paremos para olhar para ela.

publicado por vitorcandidojose às 00:09
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1 comentário:
De Anónimo a 20 de Outubro de 2004 às 19:46
O texto que te enviei é não apenas o «espelho» do meu sentir nesta fase do caminho, mas também resultado de uma inspiração diferente para um artigo que poderás consultar em breve em:
1. www.avozdequarteira.com (OPINIÃO)
2. http://olhaquedois.weblog.com.pt
A partilha e a inersubjectividade continuam a gritar bem alto pela sobrevivência. E Deus tem permitido esse luxuoso desejo manter-se no coração daqueles que amam a vida e os «seus».Jorge Dias
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(mailto:jorgehumbertodias@iol.pt)

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