Quinta-feira, 4 de Novembro de 2004

Substantivos de Vida

Nestes apontamentos que são em parte os dias que fazem a minha circunstância já defendi que se avizinham tempos de renúncia. Voltarei inevitavelmente a este tema, por agora pretendo olhar paulatinamente para algumas palavras menos usadas, centrar-me nos elementos construtores das nossas relações, refiro-me as Virtudes e evidentemente lembrar pessoas que as usaram e deram-lhes o seu cunho pessoal.Impulsionado por uma conversa de jantar aproveito para manter o olhar sobre uma virtude, com a consciência que o ponto de vista apresentado é potencialmente conflituoso especialmente por abordar e ferir determinados gestos correntes que quase todos temos.A primeira virtude é a Compaixão. Provavelmente e paradoxalmente esta deve ser a única virtude da qual as pessoas não simpatizam ser alvo dela essencialmente pela condição e circunstâncias inerentes. Compaixão é partilhar e compreender um sentimento de dor, sem partilha é frieza e sem compreensão é ignorância e Compaixão não convive com a frieza nem com a ignorância. Há uma confusão entre compaixão e piedade, piedade é um pseudo sofrimento com o sofrimento de outrem, advindo apenas uma passividade e um sentir inerentemente de superioridade, “coitado” é habitualmente a palavra usada neste contexto. Compaixão é recusar considerar um sofrimento seja ele qual for como um facto indiferente e um ser vivo seja ele qual for como uma coisa. Compaixão contraria a crueldade que se regozija com o sofrimento dos outros e do egoísmo que não quer saber dele.
publicado por vitorcandidojose às 09:00
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5 comentários:
De Anónimo a 4 de Novembro de 2004 às 19:28
A vida tem destas coisas. Sabes, Jorge, eu fiquei sem o meu pai, sensivelmente com a mesma idade que tu (18 anos), mais coisa menos coisa.
Estou a falar do mesmo pai. Tenho agora 55. Fiquei sem ele sem ninguém me dizer porquê. Mas que houve alguma negligência no processo, não tenho dúvidas. É um processo muito difícil. Perder um pai. E eu perdi-o, sabes bem, duas vezes. A primeira, tinha eu os tais 18 anos. O então só meu pai saíu de casa. Sem me dizer porquê. A minha idade e, fundamentalmente, a minha inexperiência de vida, deixaram-me atordoado. Eu tinha pai? Realmente tinha, mas nem sabia dele. Nada. Rigorosamente nada. E ninguém me dizia porquê. Mais tarde, tinhas tu 18 anos, eu voltei a perder o meu pai (então já nosso). Continuei sem saber porquê. Digo mais. Só dez dias depois dele morrer é que eu soube que tinha ficado, definiva e irremediavelmente, sem pai. Longe de querer medir dores, quero que tenhas a certeza que a dor me atacou duas vezes. Sem ninguém me explicar porquê, eu ia sendo re-consumido pela dor. Agora mais forte, talvez. Ele tinha partido sem se despedir de mim. E ninguém, Jorge, ninguém me permitiu que eu me despedisse dele.
A vida é assim. Dura. Muito dura.
Trezentos quilómetros não são muito. Seiscentos é que são o dobro. E já pesam num macro orçamento. Mas isto são outras contas que talvez não se encaixem bem neste cruel balanço de uma vida de negligências.
Jorge, és um jovem com talento. A vida tem-te sido difícil. Lutaste, e lutas, como poucos. Mas, por favor, não faças julgamentos fora de tempo. Ah, e há outra coisa, Jorge. Somos irmãos.
A tua alegria é a minha. E a minha será a tua. Sofremos, de igual modo, com as coisas negativas.
Tens uma vida pela frente, mano. Aproveita-a bem.
Um abraço, rapaz.
Vitor, desculparás esta invasão. Mas a conversa proporcionou-se. Sabes como é, assessor. Outro abraço para ti.Antonio Dias
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(mailto:adias23@netcabo.pt)
De Anónimo a 4 de Novembro de 2004 às 18:52
Caros Vítor e António,
Aqui vai a minha reacção ao desafio:
O meu pai morreu e ninguém sabe porquê! Tinha eu 18 anos quando a minha vida se tornou num pesadelo. Como se deve imaginar, sendo a adolescência uma fase difícil, dispenso-me de vos contar a «aventura do meu sofrimento». Claramente, fui-me perdendo com o passar do tempo. Estive anos num deserto, em que não via ninguém. E para vos ser sincero, também não era capaz de “enfrentar” o mundo! Fiquei sem a pessoa que me ensinava a viver, que me dava as bases, que me aconselhava, que me amparava quando estava triste, que me criticava, no fundo, que me amava… Fiquei sem nada. O vazio e o silêncio foram os meus companheiros durante muitos anos. E foi quando encontrei a filosofia de Sócrates, Kierkegaard e Kant que me senti “tocado” para levantar voo em direcção a outros caminhos. A filosofia era já aí o meu futuro. Já nos bancos da Universidade, dava comigo a pensar em temas que tinha conversado com o meu pai. Daí a minha Tese de Licenciatura tenha sido sobre a felicidade, porque quando penso nele, ainda hoje, só essa palavra me assalta a mente. E a sua força é de tal modo estridente, que a minha Tese de Doutoramento vai ser sobre a Ética da Afectividade em Ponty. Vivo e amo a Filosofia. E foi nesse caminho que encontrei a mulher da minha vida, com quem decidi ser progenitor de um filhote lindo. Nestas curtas linhas, está condensado todo o sentido da minha vida. E é essa a resposta a desafio do António Dias. A minha felicidade, plenamente encontrada, sentida e promovida…
A morte é um assunto resolvido na eternidade de um amor, que nunca poderá ser mesclado com a negatividade dos sentimentos humanos que clamam a posse, o superficial desorientado pela constante insatisfação… Se te “encontrares”, saberás o que estou a dizer! A vida não perdoa àqueles que nunca se encontraram! A mim, parece-me processo fácil, mas moroso. E se tivermos a ajuda de alguém, pode ser que se consiga a num tempo mais curto! Sei que as minhas filosofias nunca causaram muito impacto nos outros; sei que as pessoas nunca sentiram muito a minha falta; sei que as pessoas sempre se afastaram de mim à primeira dificuldade; sei que as pessoas se deixam vencer pelo negativo, em vez de valorizarem o positivo que há em nós e nas relações…
Se eu pudesse, inventava um subsidio para aqueles que querem promover a amizade e estão longe… Talvez ajudasse as pessoas a encontrarem-se mais. No entanto, fico pasmado, quando num pais tão pequeno as pessoas acham 300 kms muito longe. Imaginem se vivêssemos nos EUA…
Deixo à reflexão seguinte a importância de um passado não resolvido. Para mim tenho que devemos resolver o ontem, pois só assim podemos aproveitar o hoje e contruir o amanhã. Até lá ficarei à espera de vosso «ensimismamiento», isto se leram a minha Tese sobre Julian Marias!
E não esqueçam o que disse no inicio: o meu pai morreu e ninguém sabe porquê! Mas hoje, tenho quase a certeza que foi por negligência médica. Mas ainda assim, acrescento: ninguém fez nada! Eu tinha 18 anos… e fico triste quando penso que muito poderia ter sido feito… A mensagem ficou! E aí, a fé é “lei” no nosso caminhar, pessoal, nas ruas da felicidade. Não tenham medo! Coragem!
“(…) depois de tudo dito, ide todos à merda!” (Vergilio Ferreira, Pensar)
Jorge Dias
(http://olhaquedois.weblog.com.pt)
(mailto:jorgehumbertodias@iol.pt)
De Anónimo a 4 de Novembro de 2004 às 17:59
Aí está uma resposta/observação à altura de quem a faz (Vitor José). O que quer dizer que as opiniões diferentes se encaixam, desde que consubstanciadas.
Uma amostra de que não é o escrever muito que dá razão.
Legalidades linguísticas à parte, concordo com a contextualização das palavras em apreço.
Um abraço.

Antonio Dias
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(mailto:adias23@netcabo.pt)
De Anónimo a 4 de Novembro de 2004 às 16:17
Os dicionários são um elemento básico de descrição do real e de ideias através da palavra. Sendo um elemento de progressão na dimensão de uma língua , são também uma industria de palavras, não consubstanciam por inerência da sua função e da limitação humana dos seus autores toda a dimensão das palavras onde incluo a aprendizagem individual que cada palavra tenha na nossa vivência. As palavras podem e por inclusão do acima referido reflectir “até no que se escreve e como se escreve (...) diferenças...” .
Em relação a piedade sustento que é um não acto, pressupõem uma passividade do seu autor acompanhada de uma pena naturalmente mesquinha. A compaixão é a sensibilidade ao outro enquadrada por uma acção de apoio. Diferenças que fazem toda a diferença. Abraço


Vitor José
(http://lagrima.blogs.sapo.pt)
(mailto:vitorjose@cnb.pt)
De Anónimo a 4 de Novembro de 2004 às 13:17
Compaixão: pesar; piedade; dó
Piedade: compaixão; dó; pena
Estes são os significados encontrados por Francisco Torrinha.
Serve isto para dizer ao meu caríssimo Vitor José que por via do que aprendi na época, de acordo com a ortografia oficialmente estabelecida pela Convenção Ortográfica Luso-Brasileira e aprovada pelo Decreto nº 35228, de 08 de Dezembro de 1945 (que considero a salvo de mais recentes aberrações) não vejo diferença entre compaixão e piedade.
O que não belisca minimamente a intenção do senhor "assessor" ao escrever este texto.
Que vida esta! Até no que se escreve e, sobretudo, como se escreve, há diferenças. Obra das gerações e das "contratualizações" linguísticas.
Ainda assim, aqui vai o meu forte abraço. E votos de que não nos tornemos demasiado sensíveis às questões de pormenor.
Veleu?Antonio Dias
</a>
(mailto:adias23@netcabo.pt)

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