Quarta-feira, 1 de Dezembro de 2004

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Caro Ex-Primeiro-Ministro


No inicio começou por dizer que tinha uma “ideia” para o país que passava por um governo “ágil e mais pequeno”. Na apresentação do seu governo, descobrimos que afinal o seu governo pequeno era substancialmente maior que aquele que tinha servido para a comparação. Não consegui entender se o país tinha subitamente mudado ou o senhor tinha tido outra “ideia”. Duas ideias tão dispares na organização do Estado deixou-me a imaginar que provavelmente o que não existia era mesmo uma “ideia” fosse ela qual fosse.


 Mantendo-se a legitimidade do voto dos portugueses, supôs que o senhor manteria o programa do governo e aproveitaria para uma remodelação desejada e inevitável. Manuela Ferreira Leite e Marques Mendes não ficariam debaixo da sua asa, Celeste Cardona e David Justino eram saídas inevitáveis, António Mexia seria ar puro no governo. Mas não foi assim. A sua vaidade fê-lo desfazer um governo a meio do mandato e criar um a sua imagem. O senhor mudou quase tudo, nem a orgânica governamental resistiu.


A sua tomada de posse ficou marcado pelo desconhecimento, O senhor não conhecia o discurso que leu, o seu colega de coligação não conhecia a designação do Ministério que se preparava para tomar posse.


Entre a tomada de posse dos Ministros e a tomada de posse dos Secretários de Estado ainda tivemos tempo para o duelo da tomada de posse do Ministério na Rua do Século.


Chegada a tomada de posse dos Secretários de Estado foi o momento em que ficamos a conhecer a versatilidade das competências de Teresa Caeiro, até a véspera seria Secretária de Estado da Defesa, “a primeira mulher nessas funções” acabou como Secretária de Estado da Cultura. Lembrou-lhe que o senhor no seu governo teve na Cultura uma Ministra e dois Secretários de Estado, é capaz de ser ligeiramente exagerado para a não prioridade que é a cultura.


Depois chegaram as suas teimosias. Realço a deslocação das Secretarias de Estado. O resultado foi um aumento de custos e o obvio prejudicar do desempenho daquelas funções, enfim sempre alimentou algumas vaidades locais.


 Depois foi o Caos na Educação com a colocação de professores.


 O caso Marcelo, acabou por revelar a estratégia de “domesticar” a comunicação social, TVI, RTP, Diário Noticias encontravam-se nesse caminho. A “hostilidade” da comunicação social tinha todo o apoio do governo que desatava a dar tiros no pé. Henrique Chaves não é uma invenção da comunicação social, nem este role de disparates.


 No partido marcou um Congresso de consagração. O seu ego fala sempre mais alto. Para acalmar os críticos avançou com um apoio cínico a Cavaco Silva. Ignorou a questão central, a existência ou não de uma aliança para as legislativas com o PP. Tal atitude obrigou um Ministro a deslocar-se a Lisboa para apaziguar o seu parceiro de coligação. Um encontro que os dois viriam a desmentir ter existido, fica-lhes bem? Regressemos ao Congresso. Teria sido suficiente defender um congresso sensivelmente oito meses antes das eleições legislativas para que nessa altura fosse abordada a questão da coligação e assim esvaziava este assunto. Em relação ao seu apoio cínico a Cavaco Silva, será que imaginou que o Professor iria deixar passar em claro? O artigo no Expresso do passado fim de semana foi a forma encontrada de chamar-lhe medíocre e o senhor sentiu-se ferido na sua vaidade e deu um passo em frente e caiu na execrável imagem do “bebé na incubadora sendo agredido pelos familiares”.


Fala de uma decisão inédita do PR, mas o seu governo é uma enchente de situações inéditas e em regra demonstrativas de um projecto pessoal fintando todos os valores. Nenhuma destas situações per si justificam a exoneração do seu governo, mas não deixam de revelar muito de si e das pessoas de quem o senhor se rodeia. Mas a soma de todas estas situações e outras, tornaram insustentável o seu governo. Na Segunda-Feira defendi que esta era a altura para o Presidente demite-lo, congratulou-me de assim ter sido.


Na Cultura, minha área profissional, o senhor teve uma Ministra que inventou um orçamento irreal e criou um quebra-cabeças no CCB e pensou encontrar numa caricata dança de cadeiras a solução para a embrulhada, fora isso não existiu.


Peço-lhe que com a mesma dignidade com que foi o mensageiro da decisão do senhor Presidente da Republica em demite-lo se retire.


Por fim, se ainda questiona qual o motivo para o Presidente da Republica o demitir, tem oportunidade de encontrar a essência desta decisão na sua falta de lealdade para com os Portugueses e em linha directa para com o Presidente, podem os Ministros dispensar a sua lealdade, mas não podem nem devem os Portugueses prescindir dela.


Não acredito que esta noite lhe custe a adormecer o seu principal objectivo foi conseguido o senhor foi noticia e sem isso você não existe.

publicado por vitorcandidojose às 01:04
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4 comentários:
De Anónimo a 2 de Dezembro de 2004 às 00:05
Diga-me onde posso assinar. Subscrevo inteiramente a ideia da leitura Anabela Ribeiro.
Mais disto não.paulo Alexandre
</a>
(mailto:pauloalexandre1@hotmail.com)
De Anónimo a 1 de Dezembro de 2004 às 23:56
Li na Segunda-feira um consideração sua que apontava como sendo esta a altura para a queda deste governo, não julguei que fosse tão cedo esse desfecho, mas de facto você acertou.
Espero que a carta que dirige a Santana Lopes no seu blog lhe seja enviada e posso afiançar-lhe que subscrevo na integra. Por fim cito Joseph Goebbels “este homem é perigoso – ele acredita no que diz”
Anabela Ribeiro
</a>
(mailto:Dranabelaribeiro@sapo.pt)
De Anónimo a 1 de Dezembro de 2004 às 21:35
Essa é a questão. Qual é a alternativa? Socrates tem o poder no colo e agora?vitor Jose
(http://lagrima.blogs.sapo.pt)
(mailto:´vitorjose@cnb.pt)
De Anónimo a 1 de Dezembro de 2004 às 11:50
Caro Vitor
Proponho, com o devido respeito, que essa carta seja extensiva a quem tem, realmente, a culpa do actual estado de coisas. O povo votante, responsável primeiro pelo desastre agora constatado mas há muito "prometido".
Resta saber se há - e na minha opinião não há - alternativa credível.
Antonio Dias
</a>
(mailto:adias23@netcabo.pt)

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