Quarta-feira, 10 de Setembro de 2008

CORRESPONDÊNCIA


Vejo as nuvens que avançam do Atlântico

para o continente. E, por trás delas, como um pastor

exigente, o vento que as empurra. Depois,

as nuvens passam e volta o sol, com o azul

imutável das manhãs de outono, monótono e distante

como quem o olha, ao sair de casa, sem

tempo para pensar no tempo.

 

As nuvens, no entanto, continuam

o seu caminho: umas, desfazem-se em água

sobre campos vazios, ou descem para as grandes

cidades para as abraçar com um tédio

enevoado. As que me interessam, porém,

são as que sobem para norte, e ficam

mais frias à medida que as pressões continentais

abrandam o seu curso, Então, param

em dias cinzentos; e, por fim, escurecem

a tua alma, quando as olhas, e te apercebes

de que se aproxima um inverno

de solidão.

 

A não ser que leias, nesse obscuro céu,

esta carta que te mando

 

 

Nuno Júdice

O Movimento do Mundo

Lisboa, Quetzal Editores, 1996

publicado por vitorcandidojose às 16:00
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