Quarta-feira, 30 de Março de 2005

Dignidade na morte

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No Estados Unidos as fronteiras do Ser e do Estar acabam sempre numa contenda que de forma habitual se torna radical. As emoções tornam-se os condutores da acção, ganham contornos cinematográficos ao bom estilo de Hollywood. Independente desta realidade existem outras “realidades”. É tempo de uma abordagem que permita uma quebra axiologica do bem Vida. A Vida é “o essencial” mas é fundamental ao homem e inerente à nossa condição ontológica, a dignidade. Nas circunstancias em que a dignidade se encontra ausente pela incapacidade da comunidade médica de reverter o estado vegetativo persistente é legitimo que se o doente tenha expressado a vontade de recusar a vida perante a factual indignidade do seu estado lhe seja reconhecido o direito à morte digna.
Compete aos políticos enquadrar este direito nas praticas de cidadania, especialmente nas formas de registar esta vontade e no devido enquadramento nas competências médicas em moldes de voluntariado.
O que se passa no Estados Unidos no caso de Terri Schiavo nada tem de digno. A retirada da alimentação hidratação assistida ( AHA ) é “apenas” uma forma grosseira e negligente de atingir um suposto gesto de beneficência. Se o desespero familiar pode impor mentalmente este final da AHA, a ética humana dentro do contexto jurídico e na praxis médica não devia acolher este pedido que mais não é do que a recusa de executar não um cuidado médico mas a recusa de efectuar um cuidado básico e esta diferença é por si bastante significativa. Não há aqui apenas um expediente jurídico para obter o que se pretende. A ingerência médica na suspensão de cuidados básicos nada tem de humanitário mas sim de utilitarista e essa é uma fronteira que se passa mais uma vez tornando legitimo juridicamente aquilo que é objectivamente matar à fome um ser humano.


publicado por vitorcandidojose às 08:58
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Segunda-feira, 21 de Março de 2005

Tombaram mais dois policias.

Estas ocorrências continuadas de violência extrema na zona da Amadora, não são passíveis de ser analisadas episodicamente e nem fora do contexto social e histórico. Desde os idos anos 70 que se permitiu ou mesmo incentivou o crescimento dos bairros de lata. Todas as manhãs a esmagadora maioria dos homens abandona estes bairros, com o rotulo de “mão de obra barata” necessária para ocorrer ao selvagem crescimento dos subúrbios de Lisboa, dos quais financeiramente beneficiavam os Municípios quer através das taxas quer dos impostos inerentes à construção civil e empreiteiros que sem escrúpulos aproveitaram da desprotecção jurídica e das necessidades de muitas famílias. Durante anos ignorou-se os guetos que se criavam propícios a cadastrados, como o homicida destes dois agentes, que encontram nestes locais, uma fronteira do Estado de Direito que lhes permite esconderem-se e perpetuar os seus actos com uma dose acrescida de impunidade. Durante anos ignorou-se a previsível explosão da criminalidade da dita “segunda geração”. Tudo isto era por demais previsível e evitável em larga medida se não se tivesse aliado tanta incompetência a outra tanta ganância. Cabe deixar claro e sem espaço para qualquer duvida que em nenhuma palavra se procura justificar o injustificável, o acto cobarde e canalha de ceifar a vida a estes dois policias. No meu entendimento a responsabilidade pessoal não é alienável por questões de carência social, quem comete crimes deve ser punido (ponto final). Mas se continuarmos a fechar a questão na condenação do assassino e no aumento dos efectivos policiais, desculpem mas então parece que procuramos nos enfiar na asneira para obter um pretexto para um constante exercício de lamuria. Não se pode desligar a miséria da criminalidade e nesse âmbito se chama à coacção um dos maiores fracassos políticos e sociais dos últimos 30 anos, é também aqui que se revela um embrutecimento da nossa democracia. Permanecendo hoje a falta de um trabalho de índole global que passa pela segurança, justiça, emprego, cultura, saúde, habitação, escola que permita estimular a construção de projectos de vida por parte destas pessoas, urge combater estas desigualdades, este é um desígnio do Estado, de uma forma prosaica, o Estado deve assegurar no mínimo as mesmas oportunidades aos habitantes da Cova da Moura como aos residentes na Lapa.


PS : Para quem tenha algum interesse no combate ao crime urbano, “Paradigma Urbano” é um excelente livro que conta a experiência das autoridades políticas, académicas e policiais de Nova Iorque que desenvolveram um programa que reduziu substancialmente a criminalidade nessa cidade.

publicado por vitorcandidojose às 09:27
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Quinta-feira, 17 de Março de 2005

Tempos...

Nestes dias em que se cruza a minha vida, impôs-se um silêncio promovido por um Kronos que nunca abranda o seu passo e que faz da sua génese - tempo - um bem escasso.
A vida neste “Portugal de Hoje” vai configurando um ligeiro aquecimento nas expectativas e na “confiança” dos portugueses, fruto do período pós-eleitoral que é também conjugado com as atitudes de Sócrates especialmente na formação do Governo. Recusando os jogos de bastidores habituais, assentes nas chamadas escolhas do aparelho em que Guterres foi o expoente máximo ao desagregar Ministérios para compor pastas ao sabor dos caprichos e da notoriedade dos boys socialistas. Sócrates formou um governo assente no pressuposto da competência, impôs uma dignidade e uma nobreza ao acto de formação de governo que vinha sendo desprestigiado e fê-lo acompanhar por uma parcimónia no relacionamento com a comunicação social. Sócrates assume a liderança do Governo com uma situação internacional exigente para com Portugal e a nível interno encontra um certo embrutecimento da democracia.
Uma breve nota sobre o regresso de Santana Lopes ao Município Lisboeta, este regresso é a continuidade de uma “praxis política”, elementos de todos os partidos pulam do Parlamento Europeu para Ministros, de Presidentes de Câmaras para deputados, naquilo que na minha óptica é uma traição política ao desígnio do voto. Funciona o fatídico argumento – utilizado também por Santana - “Se os outros o fazem também posso faze-lo”, trata-se de um sofisma que esconde uma indevida passagem do plano sociológico para o plano ético e independente da analise sociológica esta não substitui a ética. Custe o que custar.
Acabei sem ser essa minha intenção cruzar Sócrates e Santana neste comentário e que injustiça... para Sócrates

publicado por vitorcandidojose às 02:37
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Terça-feira, 1 de Março de 2005

Palavras...

Hoje, podiam ser outras as palavras, mas optei por estas que me ofereço e que ofereço. As palavras pelas mãos e pelos olhos do mestre..

As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade
publicado por vitorcandidojose às 08:53
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